O paradoxo reflete o âmago da vida cristã. O
bem que o cristão realiza, ele não o realiza porque seja forte, mas porque a
graça de Deus nele habita e o move: “Sem Mim nada podeis fazer”, dizia
Jesus (Jo 15,5). Quanto mais despojado de si ou de qualquer presunção, tanto
mais aberta está a criatura para ser vivificada pela graça de Deus. Isto não
quer dizer que nos podemos entregar à inércia, para deixar o Senhor agir em nós;
longe disto, Paulo se esforçava como o atleta no estádio para conseguir não uma
coroa perecível, mas uma coroa imperecível (1Cor 9,25-27). Apesar deste esforço,
o Apóstolo sentia sua incapacidade para fazer o bem que desejava (Rm 7,17-19) e
confiava no dom de Deus: “Infeliz de mim!... Graças sejam dadas a Deus por
Jesus Cristo Senhor nosso” (Rm 7,24s).
O paradoxo é incômodo a quem o experimenta.
Gostaríamos de ser os próprios autores ou artistas da nossa santificação. Na
verdade, porém, esta depende do Supremo Artista, que nos burila, poda e esculpe
na medida em que lhe abrimos espaço. Quanto mais despojado
de si, tanto mais aberto está o cristão para a graça de Deus.


Queridísimos irmãos, Convoquei-os a este Consistório, não só para as três causas de canonização, mas também para comunicar-vos uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Após ter examinado perante Deus reiteradamente minha consciência, cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério petrino. Sou muito consciente que este ministério, por sua natureza espiritual, deve ser realizado não unicamente com obras e palavras, mas também e em não menor grau sofrendo e rezando. No entanto, no mundo de hoje, sujeito a rápidas transformações e sacudido por questões de grande relevo para a vida da fé, para conduzir a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu em mim de tal forma que eis de reconhecer minha incapacidade para exercer bem o ministério que me foi encomendado. Por isso, sendo muito consciente da seriedade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao Ministério de Bispo de Roma, sucessor de São Pedro, que me foi confiado por meio dos Cardeais em 19 de abril de 2005, de modo que, desde 28 de fevereiro de 2013, às 20 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro ficará vaga e deverá ser convocado, por meio de quem tem competências, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice. Queridísimos irmãos, lhes dou as graças de coração por todo o amor e o trabalho com que levastes junto a mim o peso de meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora, confiamos à Igreja o cuidado de seu Sumo Pastor, Nosso Senhor Jesus Cristo, e suplicamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista com sua materna bondade os Cardeais a escolherem o novo Sumo Pontífice. Quanto ao que diz respeito a mim, também no futuro, gostaria de servir de todo coração à Santa Igreja de Deus com uma vida dedicada à oração
